Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011
 

As Capelas e o Património.

 As capelas públicas de Lousada fazem parte integrante do Património concelhio, sendo na sua quase totalidade públicas: todo o património é do domínio “público”. E fazem parte da memória colectiva da comunidade em que estão inseridas. São memória, enquanto nós representamos a herança dessa memória legada pelos nossos antepassados.

Assim, as capelas representam a memória dos homens e o pulsar das comunidades, sendo também os sinais da sua identidade; são elas que representam algo de cada um; que os ajudam a centralizar os seus destinos; e que os levam a perspectivar e a acreditar no futuro; e é por isso que são património, são memória, que urge inventariar, sistematizar, potenciar, valorizar e divulgar.

As capelas, enquanto património não são tão monumentais quanto as igrejas paroquiais, os solares, as pontes românicas; mas representam um património que congrega à sua volta uma força poderosa, mística e de fé que leva os homens a fixá-las como o derradeiro refúgio.

São um tipo de património - de memória - que predomina em Lousada, que urge valorizar, dado pouco ou nada ter sido feito.

As capelas fazem, pois, parte da nossa memória colectiva, sendo património de qualidade. É, por isso, crucial que se mantenha a memória, a qualidade, para que estas - as capelas - continuem a ser testemunhos de hoje e de futuro. E por muito “pobre” que uma capela seja, ela representa o passado, e, por isso mesmo, deve continuar a sua função: perpetuação da memória.

Podemos afirmar que a manutenção da qualidade e da memória, do património - neste caso das capelas - pressupõe uma sensibilização e conhecimento das suas virtualidades, da sua importância e da sua diversidade arquitectónica e artística.

As capelas, enquanto património, representam não só um estilo arquitectónico, uma determinada época, mas acima de tudo o pulsar de uma comunidade, a alma de um povo. E tudo isto é representa as alvas ermidas do concelho de Lousada.

 

A Sacralização do Espaço. 

 

Quem percorrer, uma a uma, as freguesias do Concelho de Lousada e reparar no local onde primitivamente foram erigidas as suas capelas públicas, chega a uma só conclusão: num alto de um monte ou num local completamente despovoado, isolado.

Um local isolado, solitário, um alto do monte. Porquê ? Haverá uma explicação para tal facto ?

Obviamente.

           

Tal como no séc. XII - XIII, uma Igreja, era o garante da posse e ocupação legal - porque cristã - de uma terra e, para além disso, o penhor de segurança religioso e psíquico para os colonizadores do seu “termo”, também no séc. XVII - XVIII, a ermida e a capelas erigida num alto de um monte ou num local isolado da freguesia  revestia-se de protecção, de benção para o território que abrangia (montes, vales, colinas, morros, etc.) e paz espiritual já que “funcionava” como protectora e último reduto dos aflitos.

A capela sacralizava o tempo e o espaço que envolvia e quanto mais longe dos seus devotos, mais importância, fora e poder tinha. O mistério, a distância, o seu poder divino e estranho, dava à santa da sua invocação um ar de todo o poder.

Ainda tinha outra função: conferia prestígio a quem a mandava erigir e que por isso cuidava dela em todos os pormenores.

A capela - lá no alto - tornava-se imprescindível à comunidade, sendo um dos pólos sacralizadores, em conjunto com a igreja, de toda a freguesia.

O nome da invocação da capela, da sua “padroeira”, é um factor importante para a comunidade paroquial. A capela - a sua padroeira - não só vela e intercede pela alma daqueles que já morreram, como é certeza da garantia do amparo e da protecção de Deus para os bens da terra, dos seus frutos, e do exorcismo dos males. As capelas, os seus santos “expulsavam” - velam - para que os demónios não tenham a veleidade de estragar as suas produções agrícolas, que não haja incêndios para que os seus montes estejam intactos (a madeira é um bem essencial).

Das capelas saíam procissões até aos vales onde os devotos dos seus santos viviam e labutavam. E nos cruzamentos e entroncamentos eram construídos cruzeiros. A procissão passava por esses locais para deles afastar os males, os demónios, do mundo. Já que “... há um outro género carregado de aspectos mágicos e que constava essencialmente  em cristianizar e apotropaicizar por meio de cruzes, de capelas, e de outros sinais amuletiformes os lugares de onde viessem más influências e os autos que dominavam a povoação. Assim, mais que para cristianizar, ou até sacralizar, as cruzes e as capelas, destinavam-se a proteger e a exorcizar o território dos entes maléficos.”17

As capelas - tal como os cruzeiros, sinais amoléticos gravados em penedos (em redor da freguesia) - tinham um filho, primeiro: proteger e exorcizar a localidade de tudo quanto fosse mais em termos de demónios.

Por tal razão, as procissões percorriam todos esses pontos considerados como hipotéticos locais de entes demoníacos.

As capelas tinham pois uma função “sacralizadora e protectora”. Aliás, as capelas, cedo apareciam no cume do monte das povoações quando estas começavam a ser povoadas. E no cimo destes montes, tendo aos seus pés os campos, iam as procissões com as rezas, as ladainhas para assim exorcizar os males daqueles locais.

Ainda hoje é aos santos “padroeiros” destas capelas a quem se pede, se roga, se apela, pelos frutos da terra, pela chuva, pela protecção pelos animais daninhos, e insectos (gafanhotos).

Actualmente, nem tanto. Hoje murmura-se, pede-se, pela saúde do filho ou da neta, da sua felicidade, etc.

Praticamente todas as capelas resultam da devoção e promessas da Época Moderna (e Contemporânea). Na Época Contemporânea foram reconstruídas pelos “brasileiros” que dessa forma adquiriram prestígio e nome.

Mas, em Lousada, vamos encontrar várias capelas em locais planos, baixos (S. Gonçalo - Macieira, N. Sr.ª da Conceição, N. Sr.ª das Necessidades - Lodares, N. Sr.ª da Misericórdia, St.º Ovídio, etc.).

Ora, estas e outras capelas, ou foram construídas em locais isolados, solitários, da freguesia, ou pertenceram a casas particulares, tornando-se mais tarde (em 1910, com a Implantação da República) capelas públicas ou foram doadas por particulares à Igreja (N. Sr.ª das Necessidades, St.ª Ovídio).

A maioria das capelas construídas em altos de montes, estão actualmente rodeadas pelos seus tementes devotos. São os casos da capela do Sr. dos Aflitos, do Loreto, S. Gonçalo (Lustosa), Sr.ª Aparecida, etc.

Uma das poucas que resiste a essa onda modernista é a capela de Sant’ Ana.

Mas a verdade é que ainda hoje - aquando das romarias - se fazem as procissões em determinado percurso e dão a volta de regresso num cruzeiro, rodeando-o.

E nas procissões não vão “espingardeiros”, nem foices e gadanhas para assim “o barulho, os morteiros e os tiros, e até o transporte de foices e gadanhas, eram essenciais para a sua eficiência - procuravam afugentar e assustar todos os males nocivos à freguesia, os das sementeiras e o da saúde,”[1]8 mas os “anjinhos” levam toda a sorte de instrumentos, de forma simbólica, e vão vestidos de santos, há andores com santos, foguetes, o santíssimo, banda de música, tamborileiros, G.N.R. a pé e a cavalo, etc.

Há, portanto, tudo - na actualidade - como havia nos séculos anteriores. E a intenção “deve” ser a mesma: exorcizar e apotropaicizar os entes maléficos”. Até a cal branca apotropaica. Temos que entender que as terras, território onde o homem viveu, e vive, é uma “dádiva “ de Deus e dos “seus santos” e por isso há que ser também generoso, reconhecido. Para “eles” se erguem capelas, onde se guardam imagens e relíquias. E aonde se levam dádivas no cumprimento de promessas, de “votos” alcançados.

No espaço sacralizado que se procura aumentar tem que, principalmente, vencer as forças do mal e demoníacas. Por tal razão se vislumbra tanta capela e tanto santo, no alto de tanto monte. Deles tinha de surgir a abundância e a fertilidade.

O bem-estar exigia a retribuição.

Daí as capelas e os santos no alto de tantos montes, que só um misto de sagrado, de protecção e segurança as faz persistir. Manto protector das aflições terrenas, e regaço dos aflitos.

In Seminário «Capelas Públicas de Lousada» 1997

 



17 Almeida, C. A. Ferreira; Território Paroquial No Entre - Douro - E - Minho. Sua Sacralização, Nova Renascença, Vol. I, Porto 1981, p. 206-211.

[1]8 Eliade, Mircea;O Sagrado e o Profano, Lisboa, s/d, p. 21.



publicado por José Carlos Silva às 20:17 | link do post | comentar

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