Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

"Imagem de um Paraíso perdido ou prometido - necessidade profunda duma outra ordem da natureza - o jardim revela-se como um universo protegido das contigências naturais dos diferentes climas e geografias.

Por detrás da aparência de prestígio de um simples espaço de recreio ou de representação social, o jardim encerra em si uma necessidade profunda de toda a alma humana em criar na terra um paraíso" [1].

O jardim em Portugal não sofreu grandes influências vindas do exterior. Manteve-se durante séculos intimamente ligado aos hábitos vivências e ao imaginário profundo do sentimento português. Esteve sempre em consonância com a arquitectura e a vida doméstica.

As grandes características do jardim português, são altos muros, alegretes, bancos, casas de fresco, azulejos e pavimentos de tijoleira.

É um espaço mais arquitectónico do que paisagístico, pois é delineado segundo as condições geográficas, voltado sobre si próprio, num ambiente de requintada intimidade, mais para ser usufruído no seu interior que para ser admirado do exterior.

1 - O jardim nortenho e o seu barroquismo

"Desde meados do século XVI, até ao fim do século XVII, é ainda, sobretudo no Sul do país, que a arte paisagística se apresenta com maior esplendor e maior número de criações ..." [2].

Mas já por esta altura se verifica no Norte e Centro, a tendência de incorporarem o jardim nas quintas de recreio.

O material adoptado foi o granito - que existe em grande abundância nesta zona do País - para a execução dos muros, bancos, alegretes e diferentes elementos decorativos, resultando daí um carácter sóbrio e robusto na  paisagem. No entanto, a dureza do granito não possibilitava os requintados detalhes da alvenaria ou do mármore, e muito incompatível com o azulejo, material este que ficou bastante circunscrito ao Sul e Centro do País.

Por outro lado, o granito vai desenvolver uma impressão, a certos elementos, de monumentalidade e volumétrica. Um dos exemplos mais significativos e que se vai destacar são as fontes, como a da Casa de Sto Ovidio, na freguesia de Aveleda.

O talhe do buxo e a frequência da utilização das japoneiras são particularidades tipicamente nortenhas.

A tendência no Norte para uma visão mais formalista da Arte, levará no século XVIII ao florescimento do Barroco muito próprio.

A abertura do jardim nortenho é virado para o exterior - está sobrelevado em relação à casa, o jardim estrutura-se assim, num largo terraço com passadiço directo para as salas do primeiro andar - sendo de citar o exemplo da Casa da Bouça na freguesia de Nogueira.

III. O granito. Sua utilização nos jardins "ordenados" setecentistas

No Norte do país, durante o século XVIII, a arte dos jardins tomou um novo incremento, sofrendo influências da arte religiosa, tanto a nível de conceitos espaciais, como dos seus elementos decorativos. Tudo isto devido ao dinamismo que a partir de meados do século XVIII, se verificou pela habitação e pelo requinte da vida doméstica, que dá origem a um vasto grupo de solares e quintas de recreio. Até essa altura, o jardim tinha desempenhado um papel secundário.

A flutuação entre espírito religioso e cortesão que se espalha a toda a vida social, inscreve nos jardins um ambiente de forte tensão dinâmica e de desenvolvimento cenográfico : patamares desdobrando-se em escadarias, balaustradas de pedra  com balaústres encimados por pináculos e pirâmides, altos chafarizes de cimalhas conturbadas e volumes salientes, estátuas de panejamentos "soprados pelo vento", talhado tudo no escuro granito da região, dotam o espaço duma densidade e dinamismo formal à imagem da arquitectura religiosa que se estendia por todo o Norte do País.

As fontes, lagos e chafarizes além de elementos de recreio, funcionavam como reservatórios de água para as zonas ou tabuleiros onde se encontravam, retendo ou distribuindo as águas conforme as necessidades.

As ditas fontes e os altos chafarizes de granito, nos seus volumes conturbados de conchas, golfinhos, carrancas, imagens alegóricas, cimalhas, nichos caracterizam com maior evidência o gosto barroco nortenho.

"Ao grande espelho de água de ambiente calmo e repousante do sul contrapõe o Norte, o chafariz monumental, um gosto que se manifestou desde o século XVII tanto nos jardins da Maia dos Bispos do Porto como em Simães perto de Felgueiras ou ainda na Casa de Avintes" [3].


IV. Fontes públicas

 

"Fontes e chafarizes foram sempre e por toda a parte lugares de encontros amorosos e de conversas à margem do público. Além dos ruidosos episódios que é fácil imaginar, entre os frequentadores dos chafarizes, a intriga e os mexericos da cidade tinham aí mesmo campo aberto e livre" [4].

Os chafarizes podem-se situar no centro de largos ou praças, ou simplesmente, encostados ao muro de uma via pública. Os primeiros, divergem por entre modelos e elementos decorativos variados, podendo ser de diferentes tamanhos, assumindo, assim, uma independência que lhe permite ser admirado pelas várias faces. Os segundos, cuja função é a praticabilidade, podem também situar-se ao fundo de um terreiro, mais ou menos recuado e regular. A sua forma pode ir desde o quadrado, o rectângulo ao semicircular ou de "meia-laranja".

Mas por motivos de crescimento urbanístico, tanto aldeias, vilas como cidades, e para um melhor funcionamento do tráfego, fizeram-se transferir uns e desaparecer outros.


V. A oficina como local de trabalho

 

Uma descrição possível é a de uma pequena oficina tradicional, sem um único elemento de trabalho industrial.

"Eis-nos diante da forja, uma caixa rectângular ou circular, construída de ferro fundido ou de tijolo refractário, com depósito côncavo, onde se queima o carvão.

Este depósito dispõe de um algaraviz ou fenda por onde entra o ar trazido do fole, ventoínha ou conduta que activa a combustão com maior ou menor intensidade.

Conjugada ou não com a forja, existe uma pia ou caldeira com água para arrefecer o ferro, a ferramenta ou molhar o carvão. Uma cúpula tronco-cónica ou tronco piramidal, sobe a forja, conduz para o exterior os gazes da combustão" [5].

1 - Os instrumentos

"Temos o cavalete ou a bigorna, o primeiro com a sua graça e o chifre, a segunda, de duplo chifre, ambos colocados sobre o cepo; os martelos, as marretas e os machos, aqueles com a sua pancada, bola ou pêna, as seguintes com as duas pancadas plana e a outra em pêna ou bola; tenazes, punções, talhadeiras, goivas, alfeça, alisador, assentador e degolador, completam sumariamente o apetrechamento da oficina" [6].


VI. Ferro forjado. Seu significado.

 

O ferro é um dos metais mais antigos de que há conhecimento. Por si mesmo, deu o nome a uma das fases da história - a Idade do Ferro. A descoberta de tal metal foi importantíssima, ou mesmo vital, para o desenvolvimento da Humanidade.

Do sílex passou-se para o domínio do mineral, da sua modulação, a qual implicava, igualmente, o domínio do fogo. Nessa Idade, o Homem aprendeu a forjar o ferro e a fazer livre uso da sua imaginação e engenho.

À arte de dar forma ao ferro por meio do fogo, da bigorna e do martelo, chama-se forjar. Existem três estados no ferro : ferro forjado ou laminado; ferro coado ou fundido; e, aço. Estes estados distinguem-se pela maior ou menor percentagem de carbono neles contida.

O ferro forjado é utilizado em trabalhos artesanais (e industriais) de adorno e decoração ao contrário do que acontece com as peças bélicas ou de trabalho.

O ferro entra nas oficinas sob a forma de barras ou arco de ferro, de secção rectangular; vergalham, verga ou verguinha, de secção quadrada; varões ou arames de secção circular, e chapa de ferro de espessuras variáveis, as quais, os laminadores e as fieiras concedem formas, depois do ferro ficar pudlado ou purificado.

1 - O passado e o presente. Funções

O ferro forjado transformou-se num produto de grande sofisticação como os bordados, o entalhamento, a cantaria. A madeira serviu a partir dos tempos medievais de pano de fundo ao ferro-forjado. Uma ferragem bastava para dar a uma tábua uma característica nobre. Um portão com um guarnecimento desse tipo conferia-lhe uma certa "leveza", as varandas e as janelas ficavam ao mesmo tempo, mais seguras e embelezadas.

Ao longo de séculos, o ferro forjado esteve na moda, especialmente nos países do sul do continente, como Itália - que possuía  grandes tradições, Espanha, Portugal, França, Holanda e Grécia.

Em toda a Europa, trabalhou-se artisticamente o ferro na forja, mas os mais exímios foram os povos da bacia mediterrânica.

Actualmente, o ferro forjado é mister de poucos ferreiros dentro da tradição artesanal. É uma das artes que infelizmente está prestes a perecer. As serralharias artísticas produzem materiais em série, que se aplicam um pouco por toda a parte. Algumas peças não têm qualidade estética, mas outras conceberam-nas artistas plásticos.

Existem pessoas que ainda encomendam trabalhos especiais e específicos. Na maioria dos casos, as peças variam entre a moldura de um portão, de uma janela, varanda, ou ainda de candeeiros e ferragens.

As oficinas de serralharia também executam a obra com perfeição, mas como produto industrial, que ao mais simples olhar a diferença é notória.

            Anteriormente, o artesão possuía determinados moldes, mas era detentor de uma grande liberdade de criação, daí o seu valor. Cada peça tinha um cunho de autenticidade, valor, esse, muito subjectivo. Contudo, uma peça antiga de ferro forjado, feita em poucas quantidades ou mesmo única, tem um preço muito elevado, não só pela sua raridade, mas também pela dificuldade da mão-de-obra.

O incremento do ferro forjado nos nossos dias está intimamente ligado a novas formas de decoração, muito mais permissivas à conjugação de estilos e também à recuperação do "antigo". Em muitas vivendas procura-se um toque de regionalidade e este é dado através dos acessórios, que no caso, pode ser apenas uma grade trabalhada.

 

OLIVEIRA; Rosa, Portões e Fontenários



[1] CARITA, Helder e CARDOSO, Homem, Tratado da grandeza dos jardins em Portugal, Círculo de Leitores, Lisboa, 1990, p. 15.

[2] ARAÚJO, Ilídio, Arte paisagística e Arte dos jardins em Portugal, Lisboa, 1962, p. 203.

[3] CARITA, Helder e CARDOSO, Homem, Ob. cit., p. 252.

[4] CHAVES, Luís, Chafarizes de Lisboa, Edição da Câmara Municipal de Lisboa, s/d, p. 12.

[5] BASTO, A. de Magalhães, et al., Ferro forjado no Porto, Publicações da Câmara Municipal do Porto - Gabinete de História da Cidade, Porto, 1955, pp. 34-35.

[6] BASTO, A. de Magalhães, Ob. cit., p. 36.


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publicado por José Carlos Silva às 20:49 | link do post | comentar

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