Quarta-feira, 6 de Julho de 2011

De 1907 a 1910, o “Jornal de Lousada” emana todo um cariz monárquico e um alinhamento católico com o ideário religioso vigente. Aliás são padres que detêm o poder político na administração concelhia. Nota-se todo um catolicismo e uma igreja altamente conservadora e colada ao poder vigente. Tudo o que a Igreja realiza (procissões, novenas, obras de restauro em igrejas, ermidas e capelas) são notícias nas páginas do “Jornal de Lousada”, monárquico e católico quanto baste. É um jornal conservador e que passa a mensagem dos senhores da terra (civis, políticos, militares, eclesiásticos, etc.).

         A partir de 1910 - com a implantação da República - passa a ser o veículo do ideário dos republicanos. Das suas páginas desaparecem as alusões às actividades religiosas e monárquicas. Assiste-se a uma troca de galhardetes entre o Padre Francisco Peixoto (pároco de S. João de Covas) - único republicano do concelho de Lousada - e todos os outros párocos do concelho.[A1] (F)

         Só a partir de 1913 é que o ideário religioso volta às páginas do “Jornal de Lousada” com a criação de um centro católico em Lousada, de que foi mentor o Dr. Augusto de Castro Meireles (que viria a ser deputado e Bispo do Porto).

         O “Jornal de Lousada” volta a dar ênfase nas suas páginas ao pensar religioso após 1926 (com o 28 de Maio), e, principalmente com a instauração do Estado Novo e o surgimento de Salazar. Nota-se nas suas páginas que a Igreja, com Salazar, readquire a pujança que tinha antes da implantação da República. Este semanário torna-se, assim, um veículo notável do ideário católico no concelho.

         No aspecto político - e durante o Estado Novo -, este periódico, transforma-se num jornal que veicula aquilo que os administradores concelhios (sob a tutela do Estado Novo) permitem. Tornando-se, assim, num veículo da nova ordem.

         A partir de 1974 foi sofrendo várias mutações, sendo numa primeira fase uma arma de propaganda das tendências políticas preponderantes (esquerda) e abafando toda e qualquer actividade religiosa / católica. No início da década de 80 até 1994 deu, novamente, uma certa atenção ao pulsar da actividade religiosa / católica no concelho.

         De 1974 a 1994 - duas décadas - a sua publicação foi incerta e nem sempre teve um equilíbrio e uma certa equidistância entre o momento político e o pulsar religioso do meio em que se movia. Talvez daí a sua “morte” tão natural.

         Durante décadas (quase nove) contou histórias, acontecimentos, vivências e legou um património fundamental para o estudo da memória concelhia.



(F)  No Jornal de Lousada, de 22 de Outubro de 1911, p.1 e n.º 220, o abade de Sousela diz que:

 “ consta que a susceptibilidade nervosa, feminina, do meu sempre estimado vizinho anda muito irritada por causa dos republicanos haverem faltado à conhecida promessa de o fazerem bispo quando subissem ao poder. D’ahi a sua novíssima evolução para monarchico ferrenho, d’ahi supor-se alvejado pelo epitheto de bispinho”. O padre de Covas respondia a 29 de Outubro de 1911, no Jornal de Lousada, afirmando que “...o artigo do Sr. padre Cunha acêrca das pensões, dividido em quatro partes por meio de astéricos, se não se pode afirmar que é uma epopeia, é um  poema, sob certo ponto de vista.

 Tudo como se vê, grandezas! Grandezas.... eu nunca pedi a republicano favores de qualidade    alguma,..., que sou, de motu próprio, republicano, anterior ao 31 de Janeiro, por convicções hauridas em alguns livros da nossa história,..., que desde que sahiu a lei da separação, vendo que essa lei se propõe a oppressão dos catholicos e a extirpação do sentimento religioso,..., a tenho combatido..., por entender que ella é um mal para a sociedade e para a pátria portuguesa, que , enfim, é falsa e falssissima a minha evolução para monarchico, como sua Rv.m.ª affirma.”

Mas já a 15 de Outubro de 1911. O abade de Covas, na primeira página do Jornal de Lousada se sentia enxovalhado, já que o padre Cunha de Sousela o “... calunnia e insulta injustamente os seus colegas em geral, e a mim talvez em particular.”

A 5 de Novembro de 19911 a redacção do J.L. termina com o espectáculo ao afirmar que “...o Reverendo Parocho de Covas é um dos raros republicanos históricos d’este concelho, tendo até bastante soffrido pela causa da Republica.

Effectivamente, por ocasião da malograda revolta de 31 de Janeiro, contra aquelle nosso amigo foi passada ordem de prisão que, se não chegou a realisar-se, foi devido à benevolência das autoridades locaes. Este facto é sufficiente a comprovar os seus sentimentos republicanos.”

 

In Prefácio, Capelas Públicas de Lousada, SILVA, José Carlos

 


A1



publicado por José Carlos Silva às 19:52 | link do post | comentar

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