Domingo, 11 de Setembro de 2011

 

Estritamente ligada à História da Freguesia a Casa do Cáscere é a única casa solarenga existente na Freguesia de Nespereira, também por isso designada de Casa Mãe da Freguesia. Desta Casa são oriundos os homens ilustres de Nespereira, como por exemplo o Visconde de Lousada ou o Dr. Afonso Quintela. 

Apesar da sua construção ter sido iniciada em 1656, conforme se pode verificar na parte superior do portão de entrada, através da data esculpida nele, o Casal do Cáscere aparece referenciado como pertencendo ao Mosteiro de Vilela. Contudo, o pouco que se sabe encontra-se numa relação de bens do mosteiro elaborado entre 1769 e 1819, nos quais o Casal do Cáscere terá sido doado ao Mosteiro entre os anos de 1072 e 1146. 

Para além dos Casais de Nespereira, o Mosteiro recebeu por doação, um vasto conjunto de bens fundiários, vendo-se obrigado a alienar o domínio das suas terras a terceiros, levando à administração indirecta dos seus bens. Também a Casa do Cáscere vai beneficiar deste novo tipo de administração, passando a sua administração a ser feita pelos personagens que passamos a apresentar. 

Cronologicamente não nos é possível fazer uma evolução da Casa do Cáscere. Pelo que nos restringimos a aflorar a sua História a partir da data que consta no portão de entrada. 

Os “senhores” que se seguem são os cabeças do casal do Cáscere, que assim estabelecem um laço directo com o Mosteiro, detendo o domínio útil da terra numa sociedade rural, típica do Antigo regime, aliando a isso alguns cargos, como os das Ordenanças de Lousada.

Genealogia dos sucessores do Casal do Cáscere

 

 

Pêro Gaspar de Cárceres e Adriana Dias

 

Pêro Gaspar de Cásceres era natural do lugar de Sequeiros da freguesia de Santa Marinha de Lodares e filho de Domingos Gaspar de Sequeiros e Maria Gonçalves de Sequeiros. Por sua vez, Adriana Dias era filha de Gonçalo e Eulália Dias do Casal do Cáscere, de quem Adriana será herdeira sucessora. 

Do casamento de Pêro Gaspar de Cásceres e Adriana Dias resultaram o nascimento de seis filhos: Domingos Gaspar, Gonçalo, Maria, Sabina, João e Camila. Fora do casamento, Pêro Gaspar de Cásceres teve ainda mais dois filhos: Inácio (filho de Antónia André) e Maria (filha de Maria Antónia). 

Embora tenham casado em Lodares, Pêro Gaspar de Cásceres e Adriana Dias foram morar para o Casal do Cáscere, como comprovam os registos de baptismo dos seus filhos. Aqui detinham o domínio útil da terra numa sociedade fortemente agrícola, que por si só evidencia um enorme poder que se reforça com o facto de Pêro Gaspar de Cásceres ser Capitão-mor de Lousada. 

Com o falecimento de Pêro Gaspar de Cásceres em Dezembro de 1651 e Adriana Dias em Outubro de 1657, João de Cásceres vai ser o sucessor da Casa do Cáscere.

João de Cásceres

João de Cásceres casa com Ana de Bessa, filha de Belchior de Bessa e Maria Vicente) a 21 de Agosto de 1652. Tendo casado com 44 anos, precisamente um ano após a morte do seu pai, leva-nos a crer que o Casal do Cáscere lhe tenha sido doado para que pudesse casar. Como do casamento de ambos não resultou qualquer herdeiro, a João de Cásceres sucedeu, por testamento, seu sobrinho António Pinto Ribeiro, filho de seu irmão Domingos de Cásceres.

António Pinto Ribeiro

Filho mais velho de Domingos Gaspar de Cásceres e de Paula Pinto, António Pinto Ribeiro, Sargento-mor do Concelho de Lousada, nasceu a 14 de Maio de 1637.

Do seu casamento com Maria Nunes de Sousa vão nascer oito filhos: Bernardo, Mariana, António, Alexandre, Clara, Catarina Manuel e José. Este último filho foi padre e teve carta de brasão de armas em 30 de Outubro de 1731.

O facto de António Pinto Ribeiro ter sido o sucessor do Casal do Cáscere, não significa que tenha sido nele morador. Na verdade, o seu registo de óbito (11 de Junho de 1695) prova que foi morador no lugar da Aldeia de Baixo da Freguesia de Cristelo. Deixou como sua herdeira a mulher Maria Nunes de Sousa que deixa como seu herdeiro António Pinto de Sousa, seu filho.

António Pinto de Sousa

Filho de António Pinto Ribeiro e Maria Nunes de Sousa, era afilhado de seu tio avô João de Cásceres. Casou com Dona Águeda Luísa de Meireles e deste casamento teve seis filhos: Ana, António, Manuel, José, Alexandra e José. 

António Pinto de Sousa obteve Carta de Brasão de Armas em 27 de Outubro de 1731. Foi Capitão-mor de Lousada depois de ter sido Sargento-mor.

Vai falecer em 23 de Dezembro de 1761, um ano depois de sua mulher. António Pinto de Sousa, como herdeiro de seus pais, doou a quinta a sua irmã Mariana. Este facto levantou um contencioso que marcará a Casa do Cáscere no século XVIII.

Por altura da escritura em que doa a Casa a sua irmã, António Pinto de Sousa ainda não tem filhos, sendo que a irmã já tinha três. Pensando ele que nunca viria a ter filhos, doou a quinta. Após a sua morte, e porque lhe sobreviveu um filho, este tentou reivindicá-la como seu legítimo herdeiro.

Mariana Nunes de Sousa

Mariana Nunes de Sousa casou com Gonçalo Oliveira (filho de Domingues Martins e de sua mulher Catarina Fonseca) em Cristelos, mas foram morar para Nespereira no Lugar de Senra. Em 1713 estariam já a morar na Casa do Cáscere, uma vez que o seu irmão já lha havia doado no ano anterior.

Do casamento nasceram três filhos: António, Teresa Clara e Bernarda Luísa. Destes três irmãos, o varão foi para padre e as duas irmãs morreram solteiras. Como eram usufrutuários da Casa do Cáscere até ao final das suas vidas, Bernarda Luísa, a última a falecer, doou a quinta por escritura a seu primo Padre Manuel (filho de António Pinto de Sousa que havia reclamado a quinta como sua).

Reverendo Manuel se São José Pinto de Sousa

Filho de António Pinto de Sousa e Águeda Luísa de Meireles, foi morador da Casa do Cáscere após doação de sua prima em 1786. Em 1806 prevendo a sua morte, fez o seu testamento instituindo por seu universal herdeiro o Doutor José António de Magalhães enquanto vivo e por morte deste, passam os seus bens para seu filho José Felisberto de Magalhães.

Tendo vindo a falecer no ano seguinte, a Casa do Cáscere é dada aos seus herdeiros Doutor José António de Magalhães e seu filho Felisberto.

José Felisberto de Magalhães

Natural da Freguesia de Lodares, era filho do Doutor José António de Magalhães e sua mulher Filipina Clara Pinto.

Não se consegue apurar qualquer tipo de parentesco nem ascendente comum entre o Reverendo e o Doutor José António Magalhães.

José Felisberto casa-se em Janeiro de 1812 com Dona Ana Albina Coelho Soares de Moura, irmã de Bernardino Coelho Soares de Moura, Brigadeiro dos reais exércitos e Barão de Freamunde.

José Felisberto de Magalhães morre em Setembro de 1825, tendo sua esposa nomeado para herdeiro da Casa do Cáscere seu sobrinho José Maria Coelho Soares de Moura.

José Maria Coelho Soares de Moura

Nascido a 25 de Abril de 1807, José Maria Coelho Soares de Moura era filho natural de Dona Joana Maria Coelho Soares de Moura (irmã de Dona Ana Albina) e de José Leopoldo de Magalhães Barbosa e Meneses (escrivão notarial de Lousada e morador no lugar do Vilar da Freguesia de Lodares).

Em 1823 José Maria vai matricular-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra. Ao longo da sua via dedicou-se à advocacia, onde realizou muitos trabalhos dos quais se destaca a “Allegação Jurídica, por parte do Autor António José de Meirelles na causa de reivindicação com a Ré D. Josefa Júlia Telles de Menezes”. Ilustre jurista do Norte de Portugal, foi o principal responsável pela fortuna da família.

No que respeita à tomada de posse da Casa do Cáscere, José Maria tê-lo-á feito verdadeiramente aquando da morte de sua tia em 1849. Porém, sabe-se com toda a certeza que já em 1839 ele é nesta morador, constando de uma escritura de reconhecimento paterno que ele próprio faz de seu filho sem ainda estar casado.

O seu filho chamava-se Luís Pinto Coelho Soares de Moura (que viria a ser o primeiro e único Visconde de Lousada) nasceu a 27 de Julho de 1837, filho também de Dona Carolina Cândida Pinto de Meireles da Casa de Serradelo da freguesia de Casais, em Lousada. José Maria só viria a casar-se com Dona Carolina em 1852 quando o filho de ambos tinha já quinze anos.

José Maria Coelho Soares de Moura vai, já na segunda metade do século XIX, desempenhar um papel extremamente importante no que respeita à Casa do Cáscere.

A partir de 1834 uma série de medidas levadas a cabo pelos liberais, entre elas a desamortização, vão permitir que o Estado exproprie os bens imóveis, que compreendiam todos os prédios rústicos e urbanos, foros, censos e pensões, alienando-os sob forma de remissão ou vendendo-os em hasta pública.

O Mosteiro de Vilela vai inserir-se neste processo, passando os seus bens para a posse do Estado e com eles o casal do Cáscere. Este vai continuar a ser administrado pela Fazenda Nacional. José Maria Coelho Soares de Moura acaba por pedir remissão do foro. Para tal pagou, a 16 de Março de 1857 a quantia de seis mil e quatrocentos reis. Por carta real, datada de 3 de Dezembro de 1859, confirma-se a remissão «ficando assim consolidados ambos os domínios na pessoa dele possuidor, seus herdeiros e sucessores, para daqui em diante possuírem e desfrutarem o mesmo casal como livre».

Tomando um rumo que se segue uma tendência nacional, José Maria Coelho Soares de Moura remiu o foro do casal do Cáscere consolidando na sua pessoa os domínios eminente e útil.

Após o falecimento de sua mãe em 1879 e de seu pai em 1880, Luís Pinto Coelho Soares de Moura, Visconde de Lousada, viria a ser único e legítimo herdeiro da Casa do Cáscere.

Luís Pinto Coelho Soares de Moura

Sobre esta ilustre personagem não nos vamos deter muito mais, uma vez que a sua importância na freguesia e concelho está relatada na rubrica Ilustres Nespereirenses.

Casou em 1866 com D. Maria da Conceição Coelho de Meireles da Casa de Fervença, em Paços de Ferreira e teve sete filhos. O mais novo dos filhos foi Afonso Soares de Moura Quintela, herdeiro da Casa do Cáscere.

Afonso Soares de Moura Quintela

Licenciado em direito pela Universidade de Coimbra, nascido em 13 de Janeiro de 1869 e falecido em 4 de Agosto de 1939, também ele um ilustre nespereirense referenciado na rubrica Ilustres Nespereirenses.

Deixou a Casa do Cáscere em testamento a um sobrinho, António Basílio Carneiro Leão, filho de sua irmã Maria Júlia Soares Moura Quintela, casada com António Pinheiro Carneiro Leão, da Casa de Figueiró, em Freamunde.

António Basílio Carneiro Leão

Foi presidente da Junta de Nespereira e Mesário na Santa Casa da Misericórdia do Porto. Ilustre Nespereirense, empresário na área da fruticultura que criava postos de trabalho na freguesia, ajudando muitas famílias a ter alguma sustentabilidade financeira, não só na apanha da fruta como também durante o ano nas benfeitorias das suas propriedades. Benemérito também da freguesia por cedência de terrenos para alargamento de redes viárias. Por partilhas a casa ficou a pertencer a seu filho António Basílio Pimentel Carneiro Leão.

António Basílio Pimentel Carneiro Leão

Casou-se com Dona Antónia Pimentel Seara Carneiro Leão, e do casamento tiveram um filho António Basílio Pimentel Seara Carneiro Leão.

António Basílio Pimentel Carneiro Leão é o actual proprietário da Casa do Cáscere e nela reside efectivamente desde 1983, continuando a preservá-la com muita dedicação. Seguindo as pegadas de seu pai, este benemérito da freguesia em muito tem contribuído na cedência de terrenos para alargamento da rede viária e, deste modo, para o desenvolvimento da freguesia de Nespereira.

António Basílio Pimentel Seara Carneiro Leão casou com Joana Torrão Cadilhe e do casamento nasceram três filhos: João Cadilhe Carneiro Leão, Manuel Cadilhe Carneiro Leão e Luís Cadilhe Carneiro Leão.

Parece estar assegurada a linhagem e continuidade da Casa do Cáscere na mesma família, como de resto já acontece há quase 400 anos.

Descrição da Casa do Cáscere

É a única casa solarenga existente na Freguesia de Nespereira. Rodeada por grande área de floresta e campos verdejantes onde predominam as vinhas.

Esta casa tem a particularidade de ainda pertencer à mesma família desde que se tem conhecimento. A construção da casa como a designamos hoje foi iniciada em 1656, conforme se pode verificar na parte superior do portão de entrada, através da data esculpida nele.

A frente do edifício até junto do portão foi construída no século XVIII e este portão era a entrada para a capela ali existente.

Em 1881 a casa foi novamente ampliada a partir da escadaria e a capela passa a ser a garagem e arrecadação, após a construção da nova e bonita capela que ainda hoje é utilizada para actos religiosos.

Virada para as traseiras do edifício existe uma casa forte, toda em pedra, com cerca de 60 centímetros de largura, onde o próprio tecto também é de pedra, a porta é de madeira de grande espessura e toda chapeada. Na parede há um furo afunilado que permite ver de dentro para fora e fazer fogo para um o exterior no caso de serem atacados. Segundo foi possível apurar, esta casa forte foi construída tendo em vista a defesa de ataques perpetrados pela quadrilha do Zé do telhado.

Para além da ampliação da casa e da nova Capela, o novo herdeiro (José Maria Coelho Soares de Moura) adquiriu também quase todos os terrenos da freguesia.

Digno de ser apreciado também é o formoso jardim romântico à ilharga da residência.

Referência Bibliográfica:
MAGALHÃES, Pedro - a casa do Cáscere. In Oppidum: Revista de História
Arqueologia e Património. Lousada Camara Municipal de Lousada, 2006. 
Nº. 1.p. 89-104.

In Junta de Freguesia de Nespereira

 

 



publicado por José Carlos Silva às 20:23 | link do post | comentar

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