Sábado, 2 de Junho de 2012

O vinte e cinco de abril trouxe incertezas, abalou consciências, despertou sonhos e permitiu viver experiências e descobrir novos mundos que o silêncio da liberdade e a coação das palavras e movimentos nunca permitiriam.

O almoço persistia na tasca do senhor Freitas, ali na vetusta rua de Santo António. O café e as horas mortas no Paládio. E havia ainda o Monte do Senhor dos Aflitos para onde iam aos pares ou em grupo passear ou namoriscar.

A quinta do Ribeiro (imortalizada por São Boaventura, em Saudades! Saudades!) e de Vila Meã eram locais prediletos para longos passeios da turma e descobertas da natureza. Na mata da segunda quinta existia uma atração especial: uma árvore, alta, grande, forte, de grossos ramos e com uma mesa e cadeiras na copa e uma escada para subir. Esta árvore era a coisa mais linda que João Boavida jamais vira.

Esquecer nunca esquecerá os longos passeios ao longo do concelho com alguns professores, tendo como desculpa a visita a certos monumentos. Professores como o Santalha, o Lino Paiva, o Carlos Araújo e outros deram-lhe a conhecer as belezas monumentais e naturais de Lousada.

Foram tempos perfeitos. Tempos de uma idade perfeita. Tempos em que os sonhos volteavam e tornavam tudo possível. Tempos em que a vida era simples e rotineira, em que tudo deslizava na mais perfeita monotonia e singeleza, em que os dias se repetiam na bonomia dos sonhos e na pacatez aparente de uma vila que se desenhava ainda no dealbar do século, entranhada em princípios e silêncios que encarnavam os olhares do espirito conservador da narrativa sacra dos senhores da antiga nobreza que se disseminava pelo concelho.

Pela vida fora recordará os tempos fugazes passados na Quinta de Vila Meã, naquele pedaço de mata idílico, junto àquela estranha e bela árvore que encantava qualquer um, floresta encantada, local de encontro e de amores fortuitos, de paixões efémeras e alucinantes e desencontros que a vida nunca apagará.

João Boavida lembrava esses percursos revestidos de ilusão e de estranheza. Eram momentos perfeitos, brilhos cintilantes que a efemeridade tornava em doce fragância. Um simples deambular pelas ruas da ditosa vila, um breve instante no café Paládio, uma ida ao monte de S. Domingos, uma longa caminhada pela parte Oeste do concelho vislumbrando os monumentos que Lousada oferece: casas nobres (Real, Argonça, Além, Ribeiro, Tapada, Valmesio, Cáscere), Igrejas (Cristelos, Ordem e Nespereira), Capelas (Real, Ribeiro, Tapada, Valmesio, Cáscere); fontes (Cristelos); apeadeiro (Nespereira), para além de cruzeiros e outros monumentos. Percorriam o trajeto na galhofa e olhavam-se rindo-se. Jovens e sem responsabilidades viam o futuro como um arco iris. Tudo valia, tudo era sonho. Por vezes davam as mãos ou trocavam promessas e havia palavras que prometiam o futuro.

Tempos perfeitos. Tempos em que um percurso nunca tinha distância. Tempo em que o cansaço não assistia ao olhar da vida. Tempo em que o possível era mesmo uma possibilidade e nunca uma miragem. Tempo em que a quimera era uma realidade presente no quotidiano. E não havia lugar à descrença, pois a esperança era uma certeza no olhar de todos.

Foram tempos perfeitos. João Boavida descobriu que a vida tinha outro sentido, um duplo sentido. Existia o tempo sagrado dos livros, do estudo, a dedicação plena à causa, o cumprimento da promessa e o deambular rotineiro pela via-sacra da vida. E percebeu que existia um outro lado existencial que fazia com que o sangue fervilhasse e tonificasse os sentimentos fazendo com que o quotidiano se tornasse desigual. Era este segundo momento que mais o atraía e seduzia. Este palpitar, este deslumbrar, esta descoberta para um mundo novo que nunca tinha despertado e que agora descobria e o levava ao mais completo desassossego.

Desse tempo perfeito recorda a felicidade do sorriso, o coração aberto ao sonho, o caminho sempre aberto, o percurso nunca interrompido e o olhar prometendo o futuro…E nunca o esquecerá.



publicado por José Carlos Silva às 23:33 | link do post | comentar

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