Terça-feira, 10 de Agosto de 2010

       Cruzeiro Paroquial

 

 

Os Cruzeiros paroquiais tinham por finalidade assinalar os limites físicos da paróquia.

São padrões públicos por excelência e símbolos de jurisdição paroquial.

 

“Desde a Idade Média, que o âmbito territorial de uma igreja, capela ou ermida, em posse e gozo de sua jurisdição, foi demarcado por cruzeiros, que lhe estabeleceram limites definidos”.[1][1]

As cruzes de pedra eram termos de propriedade e prova de domínio. Assim, a cruz como elemento sagrado, portanto respeitado por todos, era também marca de limites, de propriedade intocável.

O Cruzeiro paroquial é composto por: plataforma (de dois, três, quatro ou mais degraus); pedestal (soco, dado e cornija); coluna (base, fuste e capitel); e a cruz.[2][2]

Alguns Cruzeiros paroquiais são como pelourinhos, padrões de afirmação de poder, podendo atribuir-se-lhe um simbolismo político e social.

 

 

 

Calvário e Via-Crusis

 

 

São Cruzeiros distribuídos em série ao longo dos caminhos ou na encosta do monte, em direcção a um calvário ou capela. Desenvolvem-se em teoria de via-sacra e distribuem-se pelas povoações ou dos subúrbios de uma Capela do Senhor do Calvário ou de outra invocação, mas principalmente e logicamente desta, e vão subindo o caminho sagrado até às três cruzes do Calvário, triunfantes, lá no alto, diante da Capela: é a Via- Crusis.[3][3]

Parece ser de origem Franciscana esta piedade contrastante, mas concordante na adoração realista do Salvador com a adoração do presépio. O fieis impossibilitados de ir aos lugares santos, percorrem nesta penitência os lugares do martírio assinalados pelas cruzes sucessivas.

 

O Cruzeiro de via-sacra tem hastes de secção quadrangular e a vertical é mais alongada que a horizontal.

 

 

 

 

Cruzeiro do Cemitério

 

 

Cruzeiros colocados no interior do cemitério com a determinante função de santificar o local que recebe os restos mortais daqueles que em vida acreditaram na vida após a morte.

“Ergue-se o cruzeiro a lembrar aos vivos a piedade pelos mortos. Marca a passagem da Morte, não como tragédia e humilhação, mas esperança e triunfo”.[4][4]

Serve para alicerçar a ideia de que depois da morte haverá ressurreição, a vida, tal como aconteceu com Jesus Cristo.

 

 

 

  Cruzeiros do Centenário

 

 

São símbolos da felicidade do nosso génio colonizador aos princípios eternos do evangelho, erguidos por todos os cantos do país, a quando das comemorações centenárias de 1940.[5][5]

Foi o Padre Moreira das Neves quem lançou a ideia da construção dos Cruzeiros da independência, aproveitando para tal iniciativa patriótica o espírito de respeito que o povo Português tinha pelos muitos padrões de fé existentes por todo o país.

Centenas de novos Cruzeiros foram colocados nas cidades, vilas e aldeias de Portugal. Uns com a colaboração das Câmaras Municipais e outros por iniciativa de particulares.

 

 

 

 

Estrutura de um Cruzeiro

 

 

Há vários tipos de Cruzeiros: de cruz, crucifixo, calvário e via-crusis.

Os cruzeiros normalmente são em granito, mármore, cimento e até em ferro.

Todos os Cruzeiros têm elementos comuns, o que torna mais fácil encontrar as diferenças.

A maioria dos Cruzeiros possui plataforma, que pode ter dois, três, quatro ou mais degraus.

Alem da plataforma, têm ainda o pedestal, a coluna, o capitel e a cruz.[6][6]

O pedestal é composto pelo soco, dado e cornija. É no dado que normalmente aparecem as inscrições ou outros elementos relacionados com a origem do Cruzeiro. O dado costuma ter forma cúbica ou cilíndrica.

A coluna é composta pelo fuste e capitel. O fuste pode ser diminuído ou pançudo, conforme o seu diâmetro vai diminuindo de baixo para cima. Pode ter forma cilíndrica lisa ou estriada.

O capitel é a parte superior, normalmente mais ou menos cónica, invertida, com ou sem adornos. Consta de formas variadas, com predomínio da troncopiramidal.

O capitel pode ser da ordem jónica, dórica ou coríntia.

Os Cruzeiros que possuem uma legenda, normalmente no dado, explicam os motivos que estiveram na origem da sua edificação.

A cruz pode ser constituída de formas muito diferentes: nodosa, cilíndrica, florejada.

 

 

 

 





José Carlos Silva às 00:18 | link do post | comentar

 

 

A Cruz

A cruz tornou-se a base na arquitectura para traçar a planta das igrejas.

A figura geométrica das duas hastes tornou-se no sinal mais elementar e divulgado da piedade cristã, o mais conhecido do cristianismo, o mais usado nos actos do culto e, mesmo depois da morte, assinala a sepultura de todos aqueles que descansam em Cristo.

É a cruz das procissões. Deu o nome a novas terras, a províncias, a cidadãos, a instituições, a festas e a distinções honrosas. É usada na filatelia, na numismática, na heráldica, nas caravelas e uniu os povos europeus nas cruzadas. Encontra-se nos escudos reais, nos brasões, nos manuscritos, nas cartas, nos diplomas dos papas, imperadores e reis. A cruz inspirou obras no metal, na madeira e na pedra.[7][1]

Assim, os Cruzeiros surgem ligados à cruz dos cristãos. São símbolos da crença de um povo, marcos apontados à fé dos caminheiros e de todos aqueles que os veneram, marcando a fé dos que os erigiram como promessa.

São padrões “ por excelência da cristandade. Em terra cristã é símbolo de crença e elemento falante na paisagem humanizada. Vai do interior de povoações até aos píncaros do horizonte, por estradas amplas e caminhos rústicos. Reduzem-se à maior simplicidade de, ou a aprimoram feição artística, de granito rude, ao mármore fino, imagem de Cristo pintada ou esculpida, em alto relevo ou em pleno corpo; ou com figuras complementares”.[8][2]

Com a Contra Reforma valorizou-se ainda mais a existência do purgatório, assim como o uso de indulgências para redimir a pena por pecados cometidos. Isto originou a que fossem edificados muitos Cruzeiros para obterem em vida alguns méritos para o momento da morte.

Os Cruzeiros têm aquela rara e única beleza que a alma lhes dá e os olhos não conseguem vislumbrar e que só a fé faz ver.

Um Cruzeiro é uma “ grande cruz de pedra, erguida ao ar livre, no adro de igrejas, ou em encruzilhadas, praças, cemitérios, (...)”.[9][3]

Estão colocados nas bermas dos caminhos, nas praças, no alto dos montes, perto das povoações ou isoladas. São mais ou menos monumentais, com primores de pendor artístico uns, outros lisos.

Os Cruzeiros representam o espírito popular da devoção religiosa. Contudo, nem sempre esta causa foi determinante para a sua construção, pois muitos serviram para marcar acontecimentos de pendores variados e para proteger contra influências maléficas e feitiçarias os caminhos, as encruzilhadas e os largos das aldeias.

Por trás de cada Cruzeiro existe uma história relacionada com uma situação triste ou dramática, assim como uma profunda devoção.

Os Cruzeiros têm sempre uma relação directa com os mortos.

“ Nas encruzilhadas das incertezas, por onde um parte e por onde outro vem, está o cruzeiro de pedra, como testemunho das mais íntimas ânsias”[10][4]

No local onde se cometeu um pecado, onde se adorou um ídolo pagão, onde aconteceu uma tragédia, uma violação, um assalto, edifica-se um cruzeiro.

Marcam, pois, locais de acontecimentos individuais ou públicos, quer históricos, quer religiosos.

Muitos dos aspectos da vida interior dos cruzeiros aparecem plasmados nas suas inscrições.

Os Cruzeiros que se encontram nos adros das igrejas tinham e têm como fim santificar esses espaços. Para esta santificação são determinantes as procissões que percorrem o perímetro da igreja e dão a volta ao redor do Cruzeiro.[11][5]

 

Os que se localizam nas encruzilhadas tinham como função cristianizar um local entendido como maléfico pelo povo, pois aí realizavam-se rituais pagãos que remontavam ao culto dos Lares Viais.

Os Cruzeiros sagram locais, dominam e protegem os campos. Recordam epidemias, assinalam momentos históricos, pedem orações e sufrágios e servem de padrões paroquiais nos adros das igrejas e capelas.

Normalmente não têm grande valor histórico e artístico, contudo há alguns que são bons exemplares, bem desenhados e esculpidos. Há inscrições memorativas que distinguem muitos deles.

Constituem óptimos elementos para o estudo das crenças, dos costumes, qualidades e tendências artísticas do povo, nas várias épocas da sua história.

O Cruzeiro é uma forma de oração, um convite à reflexão, como um catecismo de pedra que nos introduz nos permanentes mistérios que movem filósofos, artistas e poetas: o enigma da origem da vida, a morte e o mundo.

Cada Cruzeiro tem uma história muito particular que, em muitos casos, deveria ser incluída nos conjuntos paroquiais, tão pouco estudados: igreja, adro, cemitério, ossário e casa paroquial.

“ O cruzeiro é inseparável da paróquia dos vivos e da paróquia dos mortos”.[12][6]

 

 

 

 


 SILVA, Leonel Vieira - In Seminário «Os Cruzeiros de Lousada»

 



[1][1] CHAVES, Luís - ob. cit, p. 14.

[2][2]  BARREIROS, Manuel de Aguiar – Elementos de Arqueologia e Belas Artes. (s.l.): (s.e.), 3ª ed, 1951, p. 46 - 50.

[3][3]  MATOS, Sebastião - Cruzeiros e Alminhas de Barcelos. Barcelos: Ed. Gabinete Património, Câmara Municipal de Barcelos, 1994, p. 8.

[4][4]  CHAVES, Luís, ob. cit, p. 17.

[5][5] Ver Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. (s.l.): Editorial Enciclopédia, Lda, Vol. XVIII,  (s.d.), p. 178.

[6][6] Ver CHAVES, Luís - ob. cit, p. 13.

 

SILVA, Leonel Vieira - In Seminário:  Cruzeiros de Lousada, U. Portucalense.  

[7][1]  Ver RUIZ, Luís Martin - ob. cit, p. 18.

[8][2]  VITERBO, Fr. Joaquim de Santa Rosa de – Elucidário. (s.l): (s.e), Vol. II, 1993, p. 145.

[9][3] FEUILLET, Michel - Vocabulário do Cristianismo. (s.l.): Ed. Edições 70, 2002, p. 46.

[10][4] RUIZ, Luís Martin - ob. cit, p.22.

[11][5] Ver RUIZ, Luís Martin - ob. cit, p.22

[12][6] RUIZ, Luís Martin - ob. cit, p. 24.

 

VIEIRA, Leonel



publicado por José Carlos Silva às 19:33 | link do post | comentar

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