Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

  

 

                Ao fazer incidir o meu Seminário no tema “As Capelas Públicas de Lousada” imediatamente me foi sugerido pelo meu Orientador de Seminário (Dr. Manuel Joaquim Moreira da Rocha) que me preocupasse, essencialmente, na busca de bibliográfica, e esta no campo dos Periódicos que se publicam e já se publicaram no concelho de Lousada .

         E assim fiz. E assim deparei com algumas boas “surpresas”.

         Um dos Periódicos de que me socorri com frequência e com o qual sustentei a grande fatia deste Seminário; falo do vetusto “Jornal de Lousada”.[A1]  (A)

         Do “Jornal de Lousada” retirei - e bebi - um grande manancial de informações, quer sobre o concelho de Lousada em si mesmo quer sobre a temática em estudo - As Capelas Públicas de Lousada.

         Artigos publicados - desde o início da sua publicação - incidem, acima de tudo sobre as obras que esta ou aquela capela necessitou,  dos restauros, aumentos ou demolições desta ou daquela ermida.

         Uma das coisas, dos factos, que mais se realçam nestes preciosos elementos da história do património artístico de Lousada, realce para o facto de o profundo cariz religioso de determinadas pessoas Ter sido, muitas vezes, a razão principal  para o restauro, e ampliação deste ou daquele templo.

         Os “Brasileiros”- emigrantes Lousadenses no Brasil e que regressaram ao concelho no princípio do séc.XX - foram muitas vezes os expoentes destas obras de cariz religioso - obras avultadas e dispendiosas - num gesto nobre, mas pleno de ostentação e marcação de poder económico e posição social. O caso mais flagrante, é sem dúvida, o Visconde de Nevogilde.

Outro facto a reter é o termos ficado a saber que Capelas houve que caíram em ruínas por falta de mecenas, de “protector”.

         Outro facto a reter é o de termos verificado que, apesar de quase todas as 26 freguesias do concelho de Lousada terem uma  ou mais Capelas, poucas são as referências às Capelas - e seus restauros, ampliações e obras - que ficam fora do perímetro da Vila (sede do concelho).

         Ao fazermos o levantamento exaustivo do “Jornal de Lousada” ficamos com uma pequena visão do que se passou com as Capelas do Nosso Senhor dos Aflitos e da Nossa Senhora do Loreto, isto desde 1907, e, em pleno centro da sede do concelho.

         Outra capela que teve honras de notícia - várias vezes - foi a Capela de Nossa Senhora de Ajuda; em Nevogilde. O seu benemérito foi o Visconde de Nevogilde (um português que fez fortuna no Brasil).

         Sobre a Ermida do Calvário (Silvares) só uma vez é notícia.

         Tirando a Capela de Nossa Senhora da Ajuda e da Capela do Calvário também a Capela de Nossa Senhora do Amparo (Covas) e de Nossa Senhora do Avelar (Pias), estas últimas muito pontualmente.

Há razões para que isto aconteça.

Por um lado a igreja viveu um período de turbulência com a Implantação da Republica. Também é certo que quanto mais longe se estava do centro do concelho, mais difícil a visibilidade do Jornal de Lousada era possível. Certo era também que os “repórteres” não abundavam e nem todos (muito poucos) tinham o privilégio de saber ler e escrever. Mas o aspecto que pesava mais era o mecenas da terra, da freguesia, a benemerência do potentado da localidade. Tal facto pesava em tudo, até na notícia a publicar no “Jornal de Lousada”, o Jornal da terra, e, portanto, na marca a ficar para a posteridade. Então se era um “Brasileiro” regressado ao seio da terra da mãe, era certo e sabido que o acto nobre - restauro de uma capela - era publicitado no Periódico da Terra. Pena é que tenham sido tão poucas as benemerências publicitadas.

Uma coisa é certa, excluindo a sede do concelho ( em que tudo era profusamente noticiado), só pontualmente outros restauros (fora da sede da Vila) foram publicitados (os mais ventilados foram as obras da capela N. Sr.ª de Ajuda, em Nevogilde ).

As notícias eram assinadas por pseudónimos, uma letra (A., Z, etc)ou muitas vezes, nem tão pouco eram assinadas.

O “Jornal de Lousada” é um semanário que é publicado, sem interrupções, desde 1907 até 1974, sem qualquer interrupção, daí também a riqueza que encerra para qualquer estudo sobre o concelho, seja qual for a temática a estudar. Nos anos oitenta teve os primeiros percalços, já que este por várias vezes esteve sem ser publicado. No início da década de 90 voltou novamente a ser publicado, mas nos meados de 1994, resignou e nunca mais (até à data) voltou o seu título a ser lido pelos Lousadenses e fieis leitores.

         Até 1974 houve sempre o cuidado de dar uma certa primazia para a publicação de notícias em que a património e a história do concelho, nelas se reflectissem. A partir desta data só muito pontualmente algo surge de novo, já que a maioria das vezes são reposições anotadas de artigos que o “Jornal de Lousada” outrora tinha dado à luz.

O “Jornal de Lousada”, como principal fonte para o meu seminário “As Capelas Públicas de Lousada”, foi realmente muito importante , já que nos deu uma visão muito precisa da evolução das Capelas Públicas de Lousada .Sem esta importante e vital Fonte seria muito difícil perceber o sentir, o pulsar, a vida, das Capelas Públicas de Lousada; o nosso objecto em estudo. É que sabendo o processo a que assistiu o restauro da capela de S. Gonçalo - Macieira, fiquei a saber a forma como as outras o foram, apesar  de não haver notícia de tal, fruto das casualidade já referidas.

         Folhear o “Jornal de Lousada” é conhecer melhor Lousada nos últimos noventa anos.

         Ao consultar certa e incerta bibliografia  deparou-se-me num dos Dicionários Corográficos de Américo Costa, a nota de que Lousada tinha antes do final do séc. XIX dois jornais a circular pelo concelho “Correio de Louzada” e o “Jornal Lousadense”.(B)

Certo é que na B.M.P. nem nos arquivos da Torre do Tombo / Lisboa há sinal deles. Em Lousada também não.

Ao existir qualquer um destes jornais quero crer que o nosso trabalho ficaria mais rico.

         Mas não ficou por aqui a minha busca de Fontes. Para além de uma imensa e exaustiva procura de elementos, de leituras , em títulos sobre o concelho de Lousada e sobre património artístico, também outros Periódicos que são normalmente publicados em Lousada - ou na região do Vale de Sousa - foram também pesquisados de fio e pavio.

         O “Jornal Terras Vale do Sousa”,(C) com os seus quase 15 anos de existência, é um “jovem” periódico que preencheu o espaço vago deixado pelo “Jornal de Lousada”.

         O T.V.S. pouco ou nada contribuiu para o estudo das Capelas  Públicas de Lousada. O T.V.S. fala muito das Romarias e muito pouco de Capelas. Há sim, reposições de artigos outrora publicados no “Jornal de Lousada”.

         Há uma ou outra nota que vem confirmar esta aquela perspectiva sobre esta ou aquela dúvida.

         Outros semanários locais foram consultados: “Repórter do Marão”(D) e Jornal “Novas do Vale de Sousa”.(E) Estas duas fontes foram muito áridas em termos de dados, de elementos, sobre o tema em estudo.

         Sem dúvida que o “Jornal de Lousada” foi a única preciosa fonte que forneceu os mais sólidos elementos para uma visão perfeita da envolvência global e de todo o historial artístico das Capelas Públicas de Lousada.

         Foi o “Jornal de Lousada” que nos deu o retracto mais fiel do pulsar das Capelas Públicas de Lousada nos últimos 90 anos.

         Daí a sua importância vital. De 1907 a 1910, o “Jornal de Lousada” emana um espírito todo ele de cariz monárquico e de um verdadeiro alinhamento católico e com o ideário religioso vigente. Aliás são padres que detêm o poder político na administração concelhia. E nota-se todo um catolicismo e uma igreja altamente conservadora e colada ao poder vigente. Tudo aquilo que a Igreja realiza (procissões, novenas, obras de restauro em igrejas, ermidas e capelas) são notícias nas páginas do “jornal de Lousada”, monárquico e católico quanto baste. É um jornal bem conservador e que passa a mensagem dos então senhores da terra (civis, políticas, militares, eclesiásticos, etc.).

         A partir de 1910 - com a implantação da República - o “Jornal de Lousada” passa a ser o veículo do ideário dos republicanos e das suas páginas desaparecem as alusões às actividades religiosas e monárquicas. Assiste-se até a uma troca acesa de galhardetes entre o Padre Francisco Peixoto (pároco de S. João de Covas) - único republicano do concelho de Lousada - e todos os outros párocos do concelho.[A2] (F)

         Só a partir de 1913 é que o ideário religioso volta às páginas do “Jornal de Lousada”, com a criação de um centro católico em Lousada e de que foi mentor o Dr. Augusto de Castro Meireles (que viria a ser deputado e Bispo do Porto).

         O “Jornal de Lousada” volta a dar ênfase nas suas páginas ao pensar religioso após 1926 (com o 28 de Maio), e, principalmente com a instauração do Estado Novo e o surgimento de Salazar. Nota-se nas suas páginas que a Igreja, com Salazar, readquire a pujança que tinha antes da implantação da República. O “Jornal de Lousada” torna-se assim um veículo notável do ideário católico no concelho.

         No aspecto político - e durante o Estado Novo - este periódico torna-se em mais um jornal que só veicula aquilo que os administradores concelhios sob a tutela do Estado Novo permitem, sendo assim um veiculo da nova ordem.

         A partir de 1974 foi sofrendo várias mutações, sendo numa primeira fase uma arma de propaganda das tendências políticas preponderantes (esquerda) e abafando toda e qualquer actividade religiosa / católica. No início da década de 80 até 1994 deu, novamente, uma certa atenção ao pulsar da actividade religiosa / católica no concelho.

         De 1974 a 1994 - duas décadas - a sua publicação foi incerta e nem sempre teve um equilíbrio e uma certa equidistância entre o momento político e o pulsar religioso do meio em que se movia. Talvez daí a sua “morte” tão natural.

         Durante quase noventa anos desfiou, contou histórias acontecimentos, vivências e legou dados fundamentais para o estudo da memória concelhia.

         Daí a sua importância. 



(A) Semanário Mensal, início da primeira publicação - 11 de agosto de 1907.

(B) Jornais que se publicaram em Lousada, no final do século XIX,  Dicionário Corográfico, Costa, Américo.

(C) Semanário que começou a ser publicado em 1982, sem interrupção até à data. Director - Álvaro Neto.

(D) Semanário editado em Amarante, mas com relativa implantação em Lousada. Início de publicação - 1983.

(E) Semanário que começou a ser publicado em 1993.

(F)  No Jornal de Lousada, de 22 de Outubro de 1911, p.1 e n.º 220, o abade de Sousela diz que:

 “ consta que a susceptibilidade nervosa, feminina, do meu sempre estimado vizinho anda muito irritada por causa dos republicanos haverem faltado à conhecida promessa de o fazerem bispo quando subissem ao poder. D’ahi a sua novíssima evolução para monarchico ferrenho, d’ahi supor-se alvejado pelo epitheto de bispinho”. O padre de Covas respondia a 29 de Outubro de 1911, no Jornal de Lousada, afirmando que “...o artigo do Sr. padre Cunha acêrca das pensões, dividido em quatro partes por meio de astéricos, se não se pode afirmar que é uma epopeia, é um  poema, sob certo ponto de vista.

 Tudo como se vê, grandezas! Grandezas.... eu nunca pedi a republicano favores de qualidade    alguma,..., que sou, de motu próprio, republicano, anterior ao 31 de Janeiro, por convicções hauridas em alguns livros da nossa história,..., que desde que sahiu a lei da separação, vendo que essa lei se propõe a oppressão dos catholicos e a extirpação do sentimento religioso,..., a tenho combatido..., por entender que ella é um mal para a sociedade e para a pátria portuguesa, que , enfim, é falsa e falssissima a minha evolução para monarchico, como sua Rv.m.ª affirma.”

Mas já a 15 de Outubro de 1911. O abade de Covas, na primeira página do Jornal de Lousada se sentia enxovalhado, já que o padre Cunha de Sousela o “... calunnia e insulta injustamente os seus colegas em geral, e a mim talvez em particular.”

A 5 de Novembro de 19911 a redacção do J.L. termina com o espectáculo ao afirmar que “...o Reverendo Parocho de Covas é um dos raros republicanos históricos d’este concelho, tendo até bastante soffrido pela causa da Republica.

Effectivamente, por ocasião da malograda revolta de 31 de Janeiro, contra aquelle nosso amigo foi passada ordem de prisão que, se não chegou a realisar-se, foi devido à benevolência das autoridades locaes. Este facto é sufficiente a comprovar os seus sentimentos republicanos.”

 


 [A1]

 [A2]

 

In Capelas Públicas de Lousada, Silva - José Carlos Ribeiro da



publicado por José Carlos Silva às 20:24 | link do post | comentar

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